terça-feira, 9 de novembro de 2010

DESCOBRINDO A ADOLESCÊNCIA HOJE.

Adolescência Hoje.

A adolescência é hoje conhecida, como o período situado entre a infância e a vida adulta, iniciada com os primeiros indícios físicos da maturidade sexual, e encerrada, com a “realização social da situação de adulto independente”. No mundo ocidental, a mesma corresponde, ao período compreendido entre os 12 (doze) e 18 (dezoito) anos de idade (Art. 2º do ECA); contudo, no que diz respeito às transformações fisiológicas, existem oscilações desse período etário, imposta palas diferenças entre os sexos, etnias, meios geográficos, condições socioeconômicas e culturais. O que leva a deduzir-se, que em um mesmo meio, encontram-se grandes variações de indivíduo para indivíduo, havendo puberdades muito precoces e outras muito tardias, onde, uma mesma pessoa em diferentes momentos tem diferentes ritmos de maturação.

Hoje, para alguns autores, a adolescência é considerada um período em que os “jovens” (adolescentes), após momentos de maturação diversificados, constroem a sua identidade e a partir de seus pontos de referência, escolhem o seu caminho profissional e o seu projeto de vida.

É importante observar que até o momento, a discussão aqui discorrida acerca da adolescência, faz referência a um adolescente inserido em um contexto social, o qual caminha em direção da construção de um projeto de vida, a partir de seus pontos de referências. No entanto, a violência social agravada gradativamente com o elevado índice de delinqüência “juvenil”, nos leva a questionar: quais os pontos de referência que nossos adolescentes estão tendo em seu convívio familiar e social, capazes de expressar tanta violência e agressividade? Assim, faz-se indubitavelmente necessário, o estabelecimento de uma breve discussão acerca da família e sua relação de referência com a adolescência.

Atualmente, a família pode ser percebida como um aspecto de maior destaque na vida de qualquer indivíduo seja pela sua ausência ou pela sua presença. Autores de diversos ramos da ciência escrevem sobre a família, pois partem de uma visão em comum, de que “a família é uma instituição provedora de forças que se manifestam no desenvolvimento do sujeito, através de controles proibitivos e ético-político”. (OTTALAGANO, 1971 apud CIAMPONE).

Pode-se apreender que a família “é um conjunto de pessoas unidas por laços de consangüinidade, de afetividade ou de solidariedade, como núcleo de apoio primeiro das pessoas, e a convivência familiar como direito”. (FÁVARO, 2004).

Contudo, a família pode ser entendida, como um importante agente socializador da criança e do adolescente; entendendo-se assim, que as características das famílias têm influência direta nas características apresentadas pelas crianças e adolescentes, ou seja, famílias violentas podem gerar crianças e adolescentes agressivos. Nessa perspectiva, a mesma se situa em uma posição privilegiada na relação com os adolescentes: no contato, no afeto e no respeito; aspectos estes que os adolescentes precisam desenvolver para a construção da perspectiva de valorização do outro, assim como, do fortalecimento da personalidade, aspectos estes visíveis em relações parentais que primam pela educação e dialogo.

Para Carvalho (2000), a família é o primeiro “sujeito” que referencia e totaliza a proteção e a socialização dos indivíduos. Nessa perspectiva, conclui-se que os adolescentes vêm ao longo do tempo, acompanhando e ao mesmo tempo sendo influenciados, pelo dinâmico processo de construção e reconstrução da estrutura familiar.

Entretanto, observa-se que nas ultimas décadas, tornou-se uma praxe ou necessidade ao discutir-se a adolescência, discuta-se também a puberdade; a qual refere-se às modificações físicas da fase do amadurecimento, das mudanças que ocorrem no corpo e do amadurecimento sexual. (KLOSINSKI, 2006).

Klosinski (2006) revela haver uma distinção entre a pré-puberdade (primeira fase) e a puberdade propriamente dita (segunda fase). Onde a primeira, é entendida como sendo o período que decorre do primeiro aparecimento dos caracteres sexuais secundários¹ e o primeiro funcionamento dos órgãos sexuais, ou seja, a primeira menstruação (menarca) e a primeira polução, em outras palavras, a primeira ejaculação, e; a segunda é analisada como o período compreendido entre a primeira polução e/ou a primeira menstruação, e o momento em que é abandonada a tendência bissexual. Assim sendo, não existe uma idade limite exata para o fim da puberdade, podendo dizer-se que ela se situa mais ou menos no fim dos 16 (dezesseis) e inicio dos 17 (dezessete) anos de idade.

Contemporaneamente, a adolescência caracteriza-se por uma crise de identidade, na qual se debatem entre questionamentos relativos ao seu corpo, aos valores existentes, as escolhas que devem ser feitas, as exigências feitas e o seu lugar na sociedade.

No entanto, independentemente de classe social, os adolescentes apresentam características diferentes nas formas de verem o mundo, de reagirem e de expressarem sentimentos; mas não propriamente na sua essência ou na sua natureza pessoal.

Esse segmento etário apresenta alguns aspectos de maior destaque, no que diz respeito a sua caracterização e a sua condição peculiar de desenvolvimento, tais como: a auto-estima fragilizada, os preconceitos, a dificuldade em expressar-se e de demonstrar sentimentos, o ataque como forma de defesa e a falta de perspectiva.

Dessa forma, além das características típicas da adolescência, esta fase peculiar de transitoriedade, também se expressa por algumas necessidades básicas que segundo Garrison e Garrison (1975), são em número de seis:
» as necessidades fisiológicas – em que se destaca a atividade corporal e sexual;
» as necessidades de segurança – que se destaca pela procura cada vez menor pelo grupo familiar, em função de uma maior procura por outros grupos;
» as necessidades de independência – que se caracteriza pelo processo de amadurecimento e pelo grande desejo de independência;
» as necessidades de pertença (de amor) – que se destaca pelo isolamento e pela mobilidade da necessidade de amor e de carinho;
» as necessidades de rendimento (motivação do rendimento) – que se caracteriza pela tentativa de impressionar o outro sexo pelo que realiza e;
» as necessidades de auto-realização e autodesenvolvimento – as quais se caracterizam pelo desenvolvimento de um bom autoconceito.

Nessa perspectiva, é importante ressaltar, que a adolescência também apresenta relações emocionais típicas dessa fase da vida, como por exemplo, a impulsividade e a instabilidade emocional, condicionadas pela percepção de novos sentimentos, mas que não manifestam ainda formas de expressão, nem pontos de referência adequados. (KLOSINSKI, 1979).

Para Klosinski (1979), os adolescentes têm inclinação pelas novas experiências, pela experimentação e pelos riscos; querem passar por experiências-limites e por experiências em profundidade, as chamadas “peak-experiences”. Nisso, eles se deixam facilmente influenciar por membros do seu grupo, o que demonstra de certa forma o elevado consumo de drogas pelos jovens. Assim, a tendência à experimentação, ao vivenciar o que não é comum, o que nunca foi feito antes, equivale por vezes a uma auto-iniciação, como pode ocorrer, por exemplo, nos ferimentos auto-infligidos (como prova de coragem para adentrar ao grupo) ou nas tentativas de suicídio.

Atualmente, os adolescentes vivem um período de organização pessoal e social que reflete em atitudes, geralmente de contestação e inquietação, durante o processo psicossocial de seu desenvolvimento. Assim, a adolescência segundo Becker (2003), diante da visão dos adultos (sistema ideológico dominante²), é uma fase repleta de conflitos; uma vez que, o adolescente atravessa uma crise que se origina nas mudanças físicas, pessoais e familiares.

Desse modo, “se existe uma ciência da crise, uma ‘crisologia’. Ela tem que se ocupar, sobretudo, com a crise da puberdade” e da adolescência. (FERNANDES, 1986 apud KLOSINSKI, 2006). Contudo, esse pensamento poderia deixar a impressão de ser um exagero, no entanto, nenhuma outra fase do desenvolvimento do individuo representa tão bem um ponto conflituoso no difícil caminho para o amadurecimento pessoal, quanto à adolescência e a puberdade, ou seja, a fase da provocação ou da teimosia.

Partindo desse pressuposto, entende-se que a adolescência não deve ser vista apenas como uma fase transitória rica em conflitos, mas também, como um período repleto de potencialidades e criatividade; uma vez que, ao considerar-se o período que se estende do inicio da puberdade até a adolescência tardia (compreendida entre os 12 e 18 anos de idade), no que diz respeito ao potencial criativo dos jovens, pode-se verificar, que nessa fase da vida a criatividade artística mostra-se de diferentes maneiras, muitas vezes se manifestando passageiramente para em seguida voltar a desaparecer. (KLOSINSKI, 2006).

Segundo Erik Ericson (1968), os adolescentes têm como principal tarefa a aquisição de uma identidade. Este processo se dá através de vários meios, sendo que, o mais importante deles é a escolha de um modelo de identificação. Nessa fase, há uma necessidade acrescente do adolescente de pertencer a um grupo, onde poderá encontrar certa uniformidade. Assim, a idéia principal está nas transformações dos valores dominantes (do grupo) em valores próprios (do indivíduo), adquiridos através de ideologias que indicam “modos de viver”, onde a apreensão deste entendimento o concede um lugar no meio social adulto, lugar este, de maturidade ideologicamente pensada; uma vez que, segundo Chauí (1984), a “ideologia formula um único modo de vida socialmente possível estabelecido pelo poder”.

Essa necessidade de pertencimento a um grupo é expressa na maioria das vezes pela formação ou inserção do adolescente em grupos, os quais irão gradativamente, segundo Klosinski (2006), substituindo o papel da família. Esses grupos constituídos na adolescência são denominados de Grupos Coetâneos.

Dessa forma, o grupo de coetâneo³ pode ser visto como um terreno que favorece o desenvolvimento, e que passa a ser necessário para que o jovem possa se libertar das relações com as primeiras pessoas de referência, isto é, com o pai e a mãe. (KLOSINSKI, 2006, p.30).

Nesse contexto, entende-se, portanto, que a adolescência é um período de contradição e de escolhas, entre um “padrão” posto pelo sistema dominante e a escolha consciente de sua vivência social.

Assim, estes adolescentes definidos pelo ECA, concebidos como pessoas em desenvolvimento, sujeitos de direitos e deveres e destinatários de proteção integral (VOLPI, 2005), nem sempre fazem a escolha “correta”, ou pelo menos, não lhes são proporcionado os meios pelos quais, os mesmos possam fazer tal escolha, caindo na maioria das vezes na criminalidade e na infração, como forma de dar respostas a uma sociedade injusta e desigual, moldada em estruturas ideologicamente dominantes em função dos interesses do capital.

REFERÊNCIAS

BECKER, Daniel. O que é adolescência. 13ª. EdPaulo, Brasiliense, 2003.


CARVALHO, Maria do Carmo Brant de Carvalho. A priorização da família na agende da política social. In: Família brasileira: a base de tudo. 4ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2000.

CIAMPONE, Maria Helena T. Uma proposta de intervenção baseada na família. In: Famílias: aspectos conceituais e questões metodológicas em projetos. Silva, Luiz et al. (Orgs).



FAVERO, Eunice. Questão social e convivência familiar. In: Jornal CRESS SP, nº48. Dezembro, 2004.

GARRISON, K.C.; GARRISON, Jr., K.C. Psychology of adolescence. 7ª ed. Englewood/Nova York: Prentice-Hall/Cliffs, 1975.

KLOSINSKI, Gunther. A adolescência hoje: situações, conflitos e desafios. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

___________. Automutilation in der Adoleszenz. Acta Paedopsychiatrica, 44, 1979, p. 311-323.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

EDUCANDO OU CRIANDO: O QUE ESTAMOS FAZENDO COM NOSSAS CRINÇAS E ADOLESCENTES?

EDUCAR OU CRIAR?

A resposta aparentemente é bastante simples. Encontra-se na dificuldade que cada vez mais os pais têm em educar seus filhos. E de que forma podemos perceber isso?

Essa distorção da educação torna-se bastante visível quando vemos cada vez mais os índices de violência contra Crianças e Adolescentes crescendo assustadoramente, assim como, quando visualizamos uma maior procura dos pais por consultórios psiquiátricos e clínicas terapêuticas. A princípio estes pais bem intencionados, procuram um acompanhamento profissional, ou mesmo, soluções milagrosas para suas dificuldades, mas infelizmente desconhecem o que eles próprios fazem de errado na educação de seus filhos.

Deve-se levar em consideração, que estes mesmos consultórios que recebem pais, também recebem filhos, ou seja, Crianças e Adolescentes que buscam uma solução miraculosa para seus problemas de inadequação social. São crianças e adolescentes sem limites que infligem às leis e às regras sociais, agridem a si mesmos, através do uso de drogas e da “flagelação” de seus corpos, além de desrespeitarem seus pais e violentarem outras crianças e adolescentes com agressões físicas, verbais e psicológicas. Tanta ausência de limites torna os pais cada vez mais frustrados e impotentes perante seus filhos, os quais estão sendo cada vez mais bem Criados e menos Educados.

Essas são algumas das conseqüências de uma constatação evidente em nossa sociedade, de que apenas cuidar dos filhos, não é mais suficiente para garantir-lhes um bom futuro. Precisamos ter em mente que existe uma grande diferença entre Educar e Criar. Nossa sociedade nos mostra cotidianamente que nossos adolescentes estão muito bem Criados: simpáticos, fortes, saudáveis, bonitos e bem vestidos, mas não Educados. Os pais simplesmente querem que seus filhos sejam felizes, porém, o que fazem para que sejam felizes e bem Educados? O fato é que poucas são as crianças e adolescentes que se consideram plenamente felizes, isso porque, ter tudo e não ter limites não é sinônimo de felicidade.

Os filhos precisam ser Educados e não mais meramente criados. As crianças e adolescentes precisam viver uma infância e adolescência com dignidade e limites, sempre em busca de seu bem estar e de sua qualidade de vida, assim como, de sua família e sua comunidade.

Os pais precisam preocupar-se mais com a educação de seus filhos, ao invés de perderem boa parte do tempo que deveria ser destinado à educação dos mesmos, com tentativas ilusórias de proporcionar-lhes felicidade, através da satisfação de prazeres, caprichos e regalias desnecessárias, vistas como mecanismos de incentivo à educação. Isso porque, ninguém pode dar felicidade a outras pessoas, nem os pais aos próprios filhos. Os pais devem ter ciência de que o máximo que eles podem proporcionar a seus filhos são momentos de alegria, prazer, saciedade, condições básicas de saúde, educação e auxiliar na construção da auto-estima e na formação de um jovem e adulto maduro e consciente; sendo uma tarefa dos filhos, aprenderem a ser felizes com os meios e recursos que lhes são proporcionados.

Que fique claro, que o grande dever dos pais é Educar seus filhos ao criá-los e não somente criá-los; é possibilitar aos mesmos, meios para que eles sejam pessoas responsáves por sua própria felicidade e conscientes de sua responsabilidade social.

Faz-se necessário frisar, que os pais devem ter prudência ao gerenciar os meios tidos como educativos ou disciplinares utilizados na educação de seus filhos. Esse alerta é para os pais que ainda confundem o estabelecer limites, com a punição e agressão de seus filhos.

Ainda precisamos repensar a forma como alguns pais estão educando nossas crianças e adolescentes. Refiro-me a nós enquanto família, sociedade e Estado. Acredito no diálogo como instrumento que pode substituir tantas formas de agressão que em nada educam. Numa família que pratica o diálogo, a criança já sabe o que lhe vai ser dito quando tem um comportamento inadequado, dispensando punições físicas e mesmos “sermões”. Não precisamos apenas de leis como as que estão aí para serem aprovadas, acerca da não violência na educação das crianças e adolescentes; precisamos fazer cumprir as que já existem; precisamos fazer com que as famílias, mesmo aquelas que vivem em realidades marcadas pela violência, possam ser instrumentalizadas e fortalecidas acerca da melhor forma de educar seus filhos, com a participação necessária do Estado.

Assim, Educar Sem Punir é uma responsabilidade de toda sociedade (pais, professores, sociedade civil e Estado), ou seja, é uma questão de responsabilização social, a qual realizada com ética, respeito e dialogo, nada mais é do que a busca pela dignidade humana de crianças e adolescentes, é o cuidar da pessoa toda e de todas as pessoas em condição peculiar de desenvolvimento, no sentido de uma atenção integral a todas as dimensões de seu desenvolvimento, quebrando assim, a cultura da violência contra crianças e adolescentes ainda tão presente em nosso cotidiano, (re)inserindo na sociedade a cultura de Proteção Integral com responsabilidade, valorizando a educação através do dialogo e responsabilizando os violadores de direitos.

Boaventura Santos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Invenção da Infância - VÍDEO

Assista ao vídeo A Invenção da Infância. Ele apresenta uma reflexão sobre o que significa ser criança no mundo contemporâneo: "ser criança não significa ter infância e, no Brasil, a depender da condição das famílias, várias infâncias são encontradas".


A Invenção da Infância em três episódios de vídeos que retratam a infância como construção social, enquanto direito de ser criança, levando-nos a refletir que essa invenção se dá quando se decide deixar as crinças brincarem, irem à escola, serem crianças; época ideal de nossas vidas em que ser criança é não ter qualquer outro compromisso que vá além do gozo puro e simples de sua inocência.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

INFÂNCIA: INVENÇÃO OU CONSTRUÇÃO SOCIAL?

INTRODUÇÃO

Vamos discutir sobre as relações e a interdependência estabelecida entre o desenvolvimento de crianças e a organização da família e da sociedade. Veremos como as concepções sobre a infância se modificaram na história, ao mesmo tempo em que se transformava a família, a escola, as relações de trabalho e a sociedade, como um todo. Assim, vamos perceber que a infância não é simplesmente um fenômeno natural e biológico a partir do nascimento, mas sim, um fenômeno histórico e social construído e reconstruído socialmente.

1. INFÂNCIA, UMA GRANDE INVENÇÃO?

Há cerca de 30 anos atrás, o sociólogo francês Philippe Áries mostrou que, como conceito restritivo e como uma forma de vida real, a infância só passou a existir a partir do Renascimento . Também a medicina, só no final do século XIX tomou conhecimento de que a criança não era simplesmente um “pequeno homem”, mas que apresenta uma fisiologia própria e características peculiares dessa fase da vida. Além do mais, com o aumento da expectativa de vida, as condições de existência se modificaram sensivelmente entre os idosos, mas, as maiores mudanças partiram à medida que a organização da família se modificou, destacando o início da diferenciação entre criança, adolescente e adulto.

Vejamos como essa fase importante da vida, passou a ser percebida como vida própria, diferente da de um adulto.

Antes do século XVIII, era muito tênue, quase inexistente, a consciência coletiva sobre as especificidades e necessidades da infância. Ignorava-se que fossem dotadas de uma personalidade, ou alma, existente desde o nascimento. A criança podia ser percebida tal como um animal de estimação, um anjo ou um selvagem. A mortalidade infantil era numerosa, mesmo nas famílias mais abastadas e, ao morrerem, com frequência, as crianças eram enterradas no próprio pátio doméstico, sem batismo. Quando sobreviviam à primeira infância podiam viver anos sem que lhes fosse atribuído um nome próprio. Assim, sem identidade, as infâncias sobreviventes resumiam-se em reproduzir a vida adulta.

Aquelas que sobreviviam às doenças dos primeiros anos, às pestes e outros males, mal adquiriam algum desembaraço físico, e logo passavam a se misturar às rodas de adultos, no trabalho e nas festas, tornando-se “pequenos adultos”.
Como, na maior parte das famílias o ofício de trabalho era realizado no próprio ambiente doméstico, brincar e trabalhar eram atividades que se misturavam, levando os pequenos a migrarem diretamente à posição de trabalhadores, sem passar pela adolescência e juventude, tal como as conhecemos nos dias atuais.

Poderíamos afirmar que tais fatos são estranhos e que não passa de uma grande invenção, isso se os analisarmos a luz das concepções que hoje temos, quando identificamos nas crianças sujeitos de direitos sociais.

2. A INFÂNCIA NA FAMÍLIA COLONIAL BRASILEIRA, RESPONSABILIDADE DE QUEM?

Até a transferência da família real para o Rio de Janeiro, em 1808, há muito poucos registros da formação histórico-social da sociedade brasileira. A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro impôs modificações significativas à nossa realidade, e se considera que esse evento contribuiu para introduzir o Brasil na era moderna.

Em sua organização social tradicional, o Brasil colonial estava segmentado entre casa grande e senzala, senhores e escravos. Cada um desses segmentos estava caracterizado por um sistema de valores e ideologias próprias, que só superficialmente esbarrava no outro.

Na casa grande, as escravas tinham a responsabilidade da amamentação, cuidado e medicação das crianças pequenas, favorecendo entre estas e as amas um senso de afeto e intimidade, muitas vezes inexistentes na relação com os progenitores.

No sistema familiar colonial, as crianças representavam um elemento a mais a serviço do poder paterno. Eram consideradas um elo supérfluo e acessório da cadeia de poder patriarcal, quando comparado aos filhos de mais idade, à esposa, a terra e aos escravos. Nos espaços públicos, eram essas posses que conferiam autoridade aos homens. Já as mulheres, fixavam-se mais em atender e servir ao marido que aos filhos. Em outras palavras, a infância não representava nenhum valor econômico e afetivo na vida dos adultos, até o momento em que as mesmas pudessem ser inseridas em atividades lucrativas.

Essa qualidade de relação familiar começou a se transformar com a chegada da família real portuguesa. Com ela, veio a ciência, novas técnicas e mais dinheiro, ampliando a urbanização e promovendo mudanças de comportamento.

O distanciamento dos pais em relação aos filhos e a atribuição do cuidado da prole às escravas, características nucleares da família colonial, foram objeto de fortes críticas dos médicos sanitaristas, pedagogos e cientistas, que passaram a habitar a Corte.

Assim, considerava-se que tais características nucleares da família colonial, contribuíam para a mortalidade e o abandono de crianças no Brasil, algo que a ciência da época já considerava necessário erradicar. Dessa forma, as novas influências da ciência sobre a organização das famílias teve um efeito moralizador, produzindo mudanças no seu interior demarcando uma nova relação familiar.

3. A INFÂNCIA E A FAMÍLIA ESCRAVA NO BRASIL, “CRIAR” PARA QUEM?

Bem diferente era a situação das famílias negras de escravos, desde o Brasil colonial, que apesar de pretenderem cuidar de suas crianças não tinham tempo, pois estavam ocupadas com os filhos de seus senhores. Além disso, mesmo sabendo que não estavam cuidando de suas crianças para si mesmas, os escravos, dedicavam o pouco tempo que lhes restavam para zelar pelos seus filhos.

Enquanto pequenas, as crianças negras eram tratadas pelos senhores de escravos tais como bichinhos de estimação, autorizadas a circular na casa grande, trançadas às pernas das escravas, fazendo gracinhas e truques, para deleite da família senhorial.

Contudo, na idade de 6 ou 7 anos, já eram consideradas aptas para o trabalho pesado, passando a atuar na própria casa grande ou no campo, com pouca diferença em relação aos adultos negros.

Em 1871, a Lei do Ventre Livre concedeu aos filhos de escravas nascidos a partir de então o direito à liberdade, lei na qual podemos notar um germe de pseudo consciência dos direitos da infância.

Em 1888, foi à vez da Lei Áurea, que extinguiu toda a forma de trabalho escravo em nosso país. No entanto, o que parecia constituir um momento de ruptura e novidade nas relações interétnicas, no Brasil, mostrou-se fonte de novas formas de opressão social.

Sem que houvesse uma política de Estado para apoiar a inserção laboral e prover apoio econômico a esse extenso grupo de ex-escravos, rapidamente passaram a sofrer outras formas de aviltamento e exploração, indo ocupar, juntamente com indígenas urbanizados, imigrantes e aventureiros estrangeiros sem posses, a base da classe dos miseráveis e excluídos sócio-econômicos de nosso país, originando os primeiros bolsões de pobreza.

Todos esses acontecimentos contribuíram para o entendimento e a concepção que hoje temos sobre a infância, que apesar de ser um fenômeno sócio-político, cultural e biológico, somente há poucas décadas passou a ser vista como tal. Assim, para melhor compreender o lugar social da infância, nos dias atuais, é importante identificarmos o papel que desempenha a escola nesse processo, pois constitui um contexto de fundamental importância no desenho da infância moderna, assim como um direito fundamental da criança.

4. A ESCOLA NA INFÂNCIA, UMA INDÚSTRIA DE ADULTOS?

Ao fim do século XVII, ocorreu na Europa o surgimento das primeiras escolas, que eram muito diferentes das atuais: funcionavam anexas às igrejas, onde frequentemente só havia uma sala na qual se reuniam alunos de diferentes idades.

No século XIX, como efeito da Revolução Industrial, da urbanização, do desenvolvimento técnico-científico, da invenção da imprensa e das mudanças na organização do trabalho, a escolarização passou a deter importância crescente na nova organização da sociedade.

Isso se deu porque o modo de produção fabril passou a exigir cada vez mais formação e especialização do trabalhador, o que elevou a importância da aprendizagem técnica e científica que se podia obter por meio da educação escolar, exigindo cada vez mais das crianças uma maior responsabilidade e compromisso com a promissora vida adulta. Assim, a escola esqueceu sua missão de educar crianças para a vida em sociedade, passando a “industrializar adultos” promissores e egoístas.

As escolas também serviram ao projeto de moralizar os jovens e controlar suas expectativas de futuro: em vez de permanecerem ociosos pela rua, em aventuras sexuais e no jogo, passaram a permanecer toda a adolescência e juventude na escola, que lhes provia com uma direção de desenvolvimento coerente com o projeto de sociedade visado pelos novos capitalistas e reformadores cristãos.

Ainda hoje, estar dentro ou fora do sistema escolar é um fator de identidade, respeito e auto-estima para os jovens. Ainda que a escola encontre problemas cada vez mais severos para cumprir suas funções nos tempos atuais, ela ainda representa uma forte referência de inclusão/exclusão social.

Assim, não há política social que tenha êxito sem que considere a necessidade do fortalecimento do sistema escolar e das condições de acesso e permanência na escola.

5. A INFÂNCIA, UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL?

Torna-se evidente que a infância não é uma mera invenção, que ela existe e sempre existiu, nos diferentes tempos e lugares, ajustando-se, construindo e reconstruindo sua própria história, definindo a concepção que hoje temos sobre infância ou infâncias. Dessa forma, cada tempo e lugar definem concepções específicas sobre a infância e a adolescência. Em diferentes tempos e lugares, infâncias vão sendo construídas e cada uma, guarda com as demais apenas uma vaga semelhança, sendo marcada por significados e valores sociais específicos.

Sandra Corazza, uma pesquisadora brasileira sobre o tema, afirma que o sentido moderno de infância é um fato cultural.

Na modernidade, surge o sentido de infantilidade, caracterizando-se o tratamento da infância como fase de menor valor social que os jovens e os adultos.

A atribuição de infantilidade à criança revela um juízo de valor derivado do pensamento econômico: os mais novos são colocados em posição de menor status social que os mais velhos, não por necessitarem de suporte, ajuda e apoio social, mas sim porque exibem menos maturidade, autonomia, racionalidade e produtividade, valores que são os mais prezados nas sociedades capitalistas modernas.

Desse modo, podemos caracterizar tais sociedades como sendo adultocêntricas, ou seja, organizadas de tal modo que os valores, atividades e significados adultos são mais importantes que os da infância. Por isso, é comum ouvirmos as crianças expressarem o desejo de se tornarem rapidamente "gente grande".

Estamos acostumados a enxergar na infância a fase de brincar, ir à escola, jogar e sonhar. Por isso, esquecemos que esta não é uma condição presente do mesmo modo em todas as sociedades, grupos ou classes sociais.

Porque prezamos a idéia de que as crianças necessitam de cuidado e proteção, além do direito à brincadeira, à imaginação, à educação e à saúde, somos levados a pensar que esta é uma forma natural e universal de tratamento concedido a todas as crianças nas diferentes sociedades.

O que precisamos compreender é que as crianças precisam ser crianças: viver, aprender, errar, estudar, brincar, ter família, estar em sociedade, ter saúde, alimentação, cultura, esporte, lazer, ser amado e respeitado como tal.

CONCLUSÃO

As experiências que definem “ser criança” e “ser adolescente” podem ser muito diferentes quando consideramos grupos sociais ou culturas diferentes, ou mesmo, em diferentes momentos históricos de um mesmo grupo social.

A forma como os pequenos se comportam, se percebem e são percebidos; os significados que levam uma criança a se identificar como “pré-adolescente”, e as cobranças e imposições feitas pelos adultos, são fatos sociais, ou seja, fenômenos construídos e transformados no processo histórico de uma sociedade. Assim, o sentido de infância e adolescência que temos hoje, nem sempre existiu em nossa sociedade. Em outros agrupamentos humanos, a forma de se proceder à passagem da infância à vida adulta envolve experiências sociais muito distintas daquilo que conhecemos como a adolescência. Deste modo, compreender a história da infância e da adolescência envolve, indiscutivelmente, estudar a história da família, dos processos de urbanização, do trabalho e das relações de produção.



REFERÊNCIA

SANTOS, Maria Cláudia Lopes de Oliveira / Psicóloga, professora da área de Desenvolvimento Humano e Educação, na graduação regular e EAD, mestrado e doutorado do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. Atua na formação de psicólogos e de professores. Realiza pesquisas sobre juventude contemporânea, socialização e infração.

COSTA, Samuel / Teólogo e sociólogo, tendo atuado como professor da área de sociologia e ciência política em diversas instituições do país. Atualmente desenvolve pesquisas sobre direitos humanos, urbanidade e juventude.