Adolescência Hoje.
A adolescência é hoje conhecida, como o período situado entre a infância e a vida adulta, iniciada com os primeiros indícios físicos da maturidade sexual, e encerrada, com a “realização social da situação de adulto independente”. No mundo ocidental, a mesma corresponde, ao período compreendido entre os 12 (doze) e 18 (dezoito) anos de idade (Art. 2º do ECA); contudo, no que diz respeito às transformações fisiológicas, existem oscilações desse período etário, imposta palas diferenças entre os sexos, etnias, meios geográficos, condições socioeconômicas e culturais. O que leva a deduzir-se, que em um mesmo meio, encontram-se grandes variações de indivíduo para indivíduo, havendo puberdades muito precoces e outras muito tardias, onde, uma mesma pessoa em diferentes momentos tem diferentes ritmos de maturação.
Hoje, para alguns autores, a adolescência é considerada um período em que os “jovens” (adolescentes), após momentos de maturação diversificados, constroem a sua identidade e a partir de seus pontos de referência, escolhem o seu caminho profissional e o seu projeto de vida.
É importante observar que até o momento, a discussão aqui discorrida acerca da adolescência, faz referência a um adolescente inserido em um contexto social, o qual caminha em direção da construção de um projeto de vida, a partir de seus pontos de referências. No entanto, a violência social agravada gradativamente com o elevado índice de delinqüência “juvenil”, nos leva a questionar: quais os pontos de referência que nossos adolescentes estão tendo em seu convívio familiar e social, capazes de expressar tanta violência e agressividade? Assim, faz-se indubitavelmente necessário, o estabelecimento de uma breve discussão acerca da família e sua relação de referência com a adolescência.
Atualmente, a família pode ser percebida como um aspecto de maior destaque na vida de qualquer indivíduo seja pela sua ausência ou pela sua presença. Autores de diversos ramos da ciência escrevem sobre a família, pois partem de uma visão em comum, de que “a família é uma instituição provedora de forças que se manifestam no desenvolvimento do sujeito, através de controles proibitivos e ético-político”. (OTTALAGANO, 1971 apud CIAMPONE).
Pode-se apreender que a família “é um conjunto de pessoas unidas por laços de consangüinidade, de afetividade ou de solidariedade, como núcleo de apoio primeiro das pessoas, e a convivência familiar como direito”. (FÁVARO, 2004).
Contudo, a família pode ser entendida, como um importante agente socializador da criança e do adolescente; entendendo-se assim, que as características das famílias têm influência direta nas características apresentadas pelas crianças e adolescentes, ou seja, famílias violentas podem gerar crianças e adolescentes agressivos. Nessa perspectiva, a mesma se situa em uma posição privilegiada na relação com os adolescentes: no contato, no afeto e no respeito; aspectos estes que os adolescentes precisam desenvolver para a construção da perspectiva de valorização do outro, assim como, do fortalecimento da personalidade, aspectos estes visíveis em relações parentais que primam pela educação e dialogo.
Para Carvalho (2000), a família é o primeiro “sujeito” que referencia e totaliza a proteção e a socialização dos indivíduos. Nessa perspectiva, conclui-se que os adolescentes vêm ao longo do tempo, acompanhando e ao mesmo tempo sendo influenciados, pelo dinâmico processo de construção e reconstrução da estrutura familiar.
Entretanto, observa-se que nas ultimas décadas, tornou-se uma praxe ou necessidade ao discutir-se a adolescência, discuta-se também a puberdade; a qual refere-se às modificações físicas da fase do amadurecimento, das mudanças que ocorrem no corpo e do amadurecimento sexual. (KLOSINSKI, 2006).
Klosinski (2006) revela haver uma distinção entre a pré-puberdade (primeira fase) e a puberdade propriamente dita (segunda fase). Onde a primeira, é entendida como sendo o período que decorre do primeiro aparecimento dos caracteres sexuais secundários¹ e o primeiro funcionamento dos órgãos sexuais, ou seja, a primeira menstruação (menarca) e a primeira polução, em outras palavras, a primeira ejaculação, e; a segunda é analisada como o período compreendido entre a primeira polução e/ou a primeira menstruação, e o momento em que é abandonada a tendência bissexual. Assim sendo, não existe uma idade limite exata para o fim da puberdade, podendo dizer-se que ela se situa mais ou menos no fim dos 16 (dezesseis) e inicio dos 17 (dezessete) anos de idade.
Contemporaneamente, a adolescência caracteriza-se por uma crise de identidade, na qual se debatem entre questionamentos relativos ao seu corpo, aos valores existentes, as escolhas que devem ser feitas, as exigências feitas e o seu lugar na sociedade.
No entanto, independentemente de classe social, os adolescentes apresentam características diferentes nas formas de verem o mundo, de reagirem e de expressarem sentimentos; mas não propriamente na sua essência ou na sua natureza pessoal.
Esse segmento etário apresenta alguns aspectos de maior destaque, no que diz respeito a sua caracterização e a sua condição peculiar de desenvolvimento, tais como: a auto-estima fragilizada, os preconceitos, a dificuldade em expressar-se e de demonstrar sentimentos, o ataque como forma de defesa e a falta de perspectiva.
Dessa forma, além das características típicas da adolescência, esta fase peculiar de transitoriedade, também se expressa por algumas necessidades básicas que segundo Garrison e Garrison (1975), são em número de seis:
» as necessidades fisiológicas – em que se destaca a atividade corporal e sexual;
» as necessidades de segurança – que se destaca pela procura cada vez menor pelo grupo familiar, em função de uma maior procura por outros grupos;
» as necessidades de independência – que se caracteriza pelo processo de amadurecimento e pelo grande desejo de independência;
» as necessidades de pertença (de amor) – que se destaca pelo isolamento e pela mobilidade da necessidade de amor e de carinho;
» as necessidades de rendimento (motivação do rendimento) – que se caracteriza pela tentativa de impressionar o outro sexo pelo que realiza e;
» as necessidades de auto-realização e autodesenvolvimento – as quais se caracterizam pelo desenvolvimento de um bom autoconceito.
Nessa perspectiva, é importante ressaltar, que a adolescência também apresenta relações emocionais típicas dessa fase da vida, como por exemplo, a impulsividade e a instabilidade emocional, condicionadas pela percepção de novos sentimentos, mas que não manifestam ainda formas de expressão, nem pontos de referência adequados. (KLOSINSKI, 1979).
Para Klosinski (1979), os adolescentes têm inclinação pelas novas experiências, pela experimentação e pelos riscos; querem passar por experiências-limites e por experiências em profundidade, as chamadas “peak-experiences”. Nisso, eles se deixam facilmente influenciar por membros do seu grupo, o que demonstra de certa forma o elevado consumo de drogas pelos jovens. Assim, a tendência à experimentação, ao vivenciar o que não é comum, o que nunca foi feito antes, equivale por vezes a uma auto-iniciação, como pode ocorrer, por exemplo, nos ferimentos auto-infligidos (como prova de coragem para adentrar ao grupo) ou nas tentativas de suicídio.
Atualmente, os adolescentes vivem um período de organização pessoal e social que reflete em atitudes, geralmente de contestação e inquietação, durante o processo psicossocial de seu desenvolvimento. Assim, a adolescência segundo Becker (2003), diante da visão dos adultos (sistema ideológico dominante²), é uma fase repleta de conflitos; uma vez que, o adolescente atravessa uma crise que se origina nas mudanças físicas, pessoais e familiares.
Desse modo, “se existe uma ciência da crise, uma ‘crisologia’. Ela tem que se ocupar, sobretudo, com a crise da puberdade” e da adolescência. (FERNANDES, 1986 apud KLOSINSKI, 2006). Contudo, esse pensamento poderia deixar a impressão de ser um exagero, no entanto, nenhuma outra fase do desenvolvimento do individuo representa tão bem um ponto conflituoso no difícil caminho para o amadurecimento pessoal, quanto à adolescência e a puberdade, ou seja, a fase da provocação ou da teimosia.
Partindo desse pressuposto, entende-se que a adolescência não deve ser vista apenas como uma fase transitória rica em conflitos, mas também, como um período repleto de potencialidades e criatividade; uma vez que, ao considerar-se o período que se estende do inicio da puberdade até a adolescência tardia (compreendida entre os 12 e 18 anos de idade), no que diz respeito ao potencial criativo dos jovens, pode-se verificar, que nessa fase da vida a criatividade artística mostra-se de diferentes maneiras, muitas vezes se manifestando passageiramente para em seguida voltar a desaparecer. (KLOSINSKI, 2006).
Segundo Erik Ericson (1968), os adolescentes têm como principal tarefa a aquisição de uma identidade. Este processo se dá através de vários meios, sendo que, o mais importante deles é a escolha de um modelo de identificação. Nessa fase, há uma necessidade acrescente do adolescente de pertencer a um grupo, onde poderá encontrar certa uniformidade. Assim, a idéia principal está nas transformações dos valores dominantes (do grupo) em valores próprios (do indivíduo), adquiridos através de ideologias que indicam “modos de viver”, onde a apreensão deste entendimento o concede um lugar no meio social adulto, lugar este, de maturidade ideologicamente pensada; uma vez que, segundo Chauí (1984), a “ideologia formula um único modo de vida socialmente possível estabelecido pelo poder”.
Essa necessidade de pertencimento a um grupo é expressa na maioria das vezes pela formação ou inserção do adolescente em grupos, os quais irão gradativamente, segundo Klosinski (2006), substituindo o papel da família. Esses grupos constituídos na adolescência são denominados de Grupos Coetâneos.
Dessa forma, o grupo de coetâneo³ pode ser visto como um terreno que favorece o desenvolvimento, e que passa a ser necessário para que o jovem possa se libertar das relações com as primeiras pessoas de referência, isto é, com o pai e a mãe. (KLOSINSKI, 2006, p.30).
Nesse contexto, entende-se, portanto, que a adolescência é um período de contradição e de escolhas, entre um “padrão” posto pelo sistema dominante e a escolha consciente de sua vivência social.
Assim, estes adolescentes definidos pelo ECA, concebidos como pessoas em desenvolvimento, sujeitos de direitos e deveres e destinatários de proteção integral (VOLPI, 2005), nem sempre fazem a escolha “correta”, ou pelo menos, não lhes são proporcionado os meios pelos quais, os mesmos possam fazer tal escolha, caindo na maioria das vezes na criminalidade e na infração, como forma de dar respostas a uma sociedade injusta e desigual, moldada em estruturas ideologicamente dominantes em função dos interesses do capital.
REFERÊNCIAS
BECKER, Daniel. O que é adolescência. 13ª. EdPaulo, Brasiliense, 2003.
CARVALHO, Maria do Carmo Brant de Carvalho. A priorização da família na agende da política social. In: Família brasileira: a base de tudo. 4ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2000.
CIAMPONE, Maria Helena T. Uma proposta de intervenção baseada na família. In: Famílias: aspectos conceituais e questões metodológicas em projetos. Silva , Luiz et al. (Orgs).
FAVERO, Eunice. Questão social e convivência familiar. In: Jornal CRESS SP, nº48. Dezembro, 2004.
GARRISON, K.C.; GARRISON, Jr., K.C. Psychology of adolescence. 7ª ed. Englewood/Nova York: Prentice-Hall/Cliffs, 1975.
KLOSINSKI, Gunther. A adolescência hoje: situações, conflitos e desafios. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.
___________. Automutilation in der Adoleszenz. Acta Paedopsychiatrica, 44, 1979, p. 311-323.



